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domingo, janeiro 17, 2016

Domingo

O mundo é grande mas hoje não tinha lugar pra mim.
Fui para a rua andar.
Procurei um amigo...
Onde estão meus amigos?
Quem são?

Árvores altas de densa folhagem circundam a praça.
Seus galhos longos e flexíveis se entrelaçam uma a outra e dançam ao ritmo do vento que brinca alternando o compasso.

O baixo canteiro é vão aberto e estreito, com pequenos arbustos cercado por baixas paredes retilíneas de pedras chatas, claras e escuras, e na ramagem abelhas voejam.

Os pombos catam coisas quase invisíveis, arrulham, dançam, trepam, e novamente dançam e se coçam se atacam; abrem asas e transam. 
Toda essa atitude certamente é um ritual de amor.

Formiguinhas passeiam, param e se cumprimentam, mas pouco se falam, e seguem como que procurando algum tesouro.

Maracanãs. 
Três crianças brincam com seus cães; o velho batuca nas pernas; o casal com filhinho de colo para à sombra e discutem e se ofendem, no olhar agressivo não há sinais de ternura...

Um homem chega e espera desconfiado e impaciente. Mas logo surge um garoto forte saudável e bonito. Eles sorriem, se abraçam, brincam, jogam palitinho e o pequeno deita em seu colo e fecha os olhos ao receber cafuné. 
De longe alguém espia, é mulher.

Como saber se o que parece certo é o melhor?

O vento corre em círculo, chega por onde estou, entra e  segue sempre da direita para a esquerda. As minúsculas folhas verdes ditam o tom e as adjacentes ramagens respondem num grave mediano e vai ao agudo suave...
E quando o vento fecha o círculo, as minúsculas folhas verdes encerram a toada. 
Dir-se-ia o poeta mineiro, uma singela sinfonia.

A dança parece uma quadrilha e a toada são versos declamados entre sussurros e suspiros. Ou talvez lamentos e gemidos... queixas.

Eu os invejo _ os pombos _, liberdade de ser e amar. Trepam livremente; e dançam.
E a árvore  me reprime atirando frutos secos em mim.
Ergo a cabeça e por uma fresta daquele vaivém dos galhos vejo a lua branca acinzentada como uma pequena fatia de nuvem perdida.

Eu vi a lua em pleno dia por entre as folhas dos arvoredos...
E é verão.
Mas hoje tem sol, tem sombra e tem vento.
As flores são minúsculas, pérolas azuis e amarelas na relva onde os marimbondos e joaninhas se divertem.

Hoje o dia é de um frescor divino.
O que eu mais posso querer?
Na verdade eu queria mais uma flor, a flor L. Salce, aqui comigo.
Mas o mundo, a natureza, a vida já fora generosa demais para comigo.

O pé de ameixa acomoda as ramas de maracujá e se mostra vaidosa ostentando frutos alheios como fossem enormes brincos verde-brilhantes.

Sinto sede. Em locais públicos não se encontra água nem para gente nem para bichos. 
_ Caberia uma lei, penso.
Já sinto frio...
Melhor movimentar-me. Saio.
Ando ao sol.

Na outra praça, muitas crianças, idosos, casais de namorados e traficantes.
O olfato capta erva proibida.
A criança cai, é valente, o pai tira as rodinhas. A mãe briga.
As mães solteiras parecem ser mais felizes.
Namorado de mãe solteira é mais atencioso e demonstra carinho...
Travestis são ousados.
Eu perco a poesia.


O vento cessa e se faz brisa. É quando posso ouvir o zunir das abelhas e o cricrilar selvagem na minha cabeça.
Mas a natureza é generosa e ordena ao maestro que recomece o concerto.

Eu saio.
Dezoito horas, deve ter finda a visita.
Atravesso a rua atento ao perigo. Ando, ando, ando... caminho mergulhado em fantasias.

O mundo é grande mas hoje não tinha lugar pra mim.
Fui para a rua andar;
Caminhei, caminhei, 
Nem sequer por um instante estive sozinho.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Embora chovesse

Saímos.
E chovia.
O encanto pediu trégua, esperou, mas o céu lhe negara.
Reforcei o pedido aos anjos que julguei competentes, pois sempre confiei na minha fé.
Ainda assim chovia.

Nem me dei conta de que anjo com anjos se entendem.
E eu, pobre mortal, que não sei falar a língua dos anjos, desanimei.

Ela, o meu encanto, certamente conhece a sua missão e não reclama do tempo nem ignora compromissos.
Quanto a mim, que sonho demais, sempre peço muito, muito além do merecimento. Pedi sol, mas já era vinda a noite; portanto saímos enquanto ainda chovia.

Lado a lado caminhamos, a passos lentos seguíamos.
Seguimos, assim, como bons amigos, suponho.

E eu olhando seus lindos pés sendo beijados por pérolas celestiais invejei até a chuva que driblava a sombrinha e tocava seu corpo bonito. Lindo, perfeito.

Observei a delicadeza dos seus passos, seus movimentos e o ritmo do seu caminhar. Mas como sempre meus olhos procuravam sua face, aquele sorriso e aquele olhar. Ali é onde mais gosto de contemplar.
Aquela face, aquele olhar... Ali contém uma mansidão de céu profundo, de infinito, de paz noturna, de agradável melancolia, de sol e mar...

Ela, certo momento me fitou e sorriu. Fiquei maravilhado, em êxtase.

E meu coração acelerado se esquecia do seu dever para com o meu frágil corpo. Entorpecido e tenso, por um instante faltara-me ar e os olhos lacrimaram.

Meu encanto...
E teve crepúsculo. E o dia se fizera lindo. Juro.

Juro que vi estrelas, e uma estranha sinfonia dilatara-me os poros. E eu me senti extremamente feliz em meio a tantas fusões de fenômenos incomuns.

Embora chovesse, pois ainda assim chovia fininho, o tempo era divino.
Foi então que descobri que para estar feliz independe do tempo, da hora, da estação e do lugar; basta tê-la ao meu lado.

É, mesmo que ela não esteja completamente comigo, ela dá sentido à minha vida...
Por isso eu a amo.

              (14/01/2016 _ ao sair do trabalho com L.S)
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Simples assim

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