"Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de
roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio
por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de
ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma
de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da
inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo
extremo de um sentimento , pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de
destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da
própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos
troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do
usual. Assim passei o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu
não sigo." (Bernardo Soares _ Heterônimo de Fernando Pessoa)
Visão Poética: "O chão é cama para o amor urgente, amor que não espera ir para a cama. Sobre o tapete ou duro piso, a gente compõe de corpo e corpo a úmida trama. E para repousar do amor, vamos à cama."
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
terça-feira, janeiro 05, 2010
Bernardo Soares (Bernardo Soares)
10.
"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos
gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos;
mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi
a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas
vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me
respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com
que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a
narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos
siameses que não estão pegados."
"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos
gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos;
mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi
a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas
vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me
respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com
que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a
narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos
siameses que não estão pegados."
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